A medicina do estilo de vida aplicada à psiquiatria: a relação entre saúde mental e saúde física

A psiquiatra Ana Paula Carvalho ressalta a importância da transformação de hábitos para a prevenção e tratamento de doenças psiquiátricas 

Cerca de 60% dos pacientes com doenças psiquiátricas morrem precocemente por conta de alguma enfermidade não-psiquiátrica, como diabetes ou problemas vasculares. Além disso, por volta de 58% desses indivíduos desenvolvem a síndrome metabólica, denominação para uma série de condições que aumentam o risco de doenças cardiovasculares. Esses são alguns dados abordados pela psiquiatra Ana Paula Carvalho ao longo do IV Congresso Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida.

“O paciente psiquiátrico é alguém com mais doenças clínicas do que a população em geral”, observa a especialista. De acordo com ela, o discurso que as doenças que afetam a saúde mental estão estritamente localizadas no cérebro é antigo e não condiz com as evidências científicas atuais. “Doenças psiquiátricas já são consideradas sistêmicas, não só uma alteração biológica em neurotransmissores. Existem, por exemplo, uma genética compartilhada com doenças cardiovasculares e endócrinas”, explica Ana Paula. 

O tratamento psiquiátrico, para a maioria dos diagnósticos, traz uma resposta parcial para os pacientes, ou seja, a abordagem com medicação e terapia é relevante, mas não é o suficiente para todos os casos. Desse modo, outras ferramentas podem auxiliar tanto na prevenção quanto no tratamento de doenças psiquiátricas, como a transformação do estilo de vida. Estudos internacionais publicados entre 2020 e 2021 sobre depressão indicam que mudanças na alimentação, exercícios físicos, sono e tabagismo têm influência na prevenção e no prognóstico positivo. Em outra publicação, analisou-se o impacto da solidão em indivíduos com doenças mentais graves, com resultados positivos de tratamento quando se há um convívio social e relacionamentos saudáveis. 

Para Ana Paula, olhar para a saúde mental conectada à saúde física é um diferencial para o tratamento dos pacientes. A prática da medicina do estilo de vida aplicada à psiquiatria ainda é recente, inclusive no Brasil, com poucas publicações formais que relacionam as áreas. “Torna-se necessário atuar em equipes integradas para cuidar dessas pessoas”, conclui a psiquiatra. 

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